Capitulo um: Kyle, memórias mortas.

Capitulo um: Kyle, memórias mortas.

                O sol brilhava bem na linha do horizonte. Fracos feixes de luz ascendiam no céu dando um leve colorido no azul do entardecer. No topo algumas estrelas já apareciam. A luz remanescente ainda tocava o telhado do velho colégio estadual Rudolph avenger, onde no ultimo andar estava Kyle.
                Kyle era um típico garoto local (o colégio era beira mar), corte de cabelo estilo selvagem primitivo, não muito forte nem musculoso. Era final de ano, portanto não tinha praticamente nada para fazer, pois o ano letivo já havia acabado.
                De repente alguém bate na porta, era a diretora chefe do colégio:
                - boa notícia, todos vocês foram liberados devido ao horário e ao término das aulas.
                Parece que um furacão tinha passado na sala. Todos os alunos saltaram das carteiras e correram ao mesmo tempo em direção à porta. Quase que a diretora foi esmagada.
                Kyle, que não era de deixar passar se camuflou na multidão e saiu voando da sala, agora iria para a casa de uma tia não muito longe dali.
                O local era maravilhosamente lindo. Só tinha como se chegar de barco ou avião, pois era uma ilha isolada, uma ilha vulcânica bem afastada do continente. Logo na enseada virada para o porto (um porto gigante), viam-se, na parte litorânea, várias casas antigas, coloniais, com cores que iam do verde limão até o rosa claro. Era uma mistura interessante. Praias, uma floresta ao fundo, estradas de terra e asfalto beirando o relevo montanhoso, e o vulcão “mãe” ao centro.
                A casa de sua tia era uma dessas, antiga, perto da praia. Por fora parecem pequenas, mas por dentro são enormes, algumas chegando a ter até quarto de hóspedes e porão extra. Logo que chegou sua tia já o estava esperando:
                -Kyle, eu não acredito, - exclamou sua tia Marion – como você cresceu...
                - è... Estou precisando parar um pouco inclusive! – disse Kyle rindo.
                E os dois entraram em casa, um olhando para o rosto do outro, admirado.
                Ficaram a tarde toda vendo TV e comendo pipoca, coisa que nenhum dos dois poderia fazer num dia normal.
                Logo pela manhã, ele foi pra o bar de seu pai. Era na beira da floresta, e cercada por quase todos os lados de árvores e mato.
                Quando a noite ia surgindo, o bar já fechado, os dois pararam para conversar na varanda do bar:
                - Lugar lindo você não acha? – perguntou seu pai Charles.
                - Com certeza! – exclamou – o quê eu poderia querer mais? Praia, sol o ano todo, essa floresta maravilhosa...
                - Haha! Estou vendo que Você tem bom gosto como seu pai aqui!
                - Burro é quem não gosta disso tudo.
                - E o melhor é que nada pode estragar esse paraíso.
                SHhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...
                A televisão começou a chiar e ficou com aquele ruído monocromático na tela. Quando a imagem voltou, era só uma tela azul com letras em preto passando da direita pra esquerda: “Todos, eu repito, todos, deixem suas casas imediatamente e dirijam-se ao porto! Os transportes já foram providenciados, ou subam o mais alto que puderem em qualquer morro!
O vulcão de nossa ilha foi reativado por motivos misteriosos. A lava chegará à área habitada em menos de 5 minutos!
                Quando eles viram isso, pegaram uma muda de roupas e alguns suprimentos e subiram na casa em tempo recorde para ver o que estava acontecendo. A cena era digna de um filme do Steven Spielberg. Fumaça e lava borbulhando da cavidade protuberante do vulcão, e uma espécie de insetos gigantes saindo da cavidade e incrivelmente, cobertos de lava.

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                Todos os seres selvagens de lá simplesmente sumiram no período de um dia mais ou menos. Na hora em que Kyle e sue pai estavam na varanda, foi estranho que nenhum dos dois percebeu a estranha falta de movimento ao redor.
                Num esforço desesperado eles botaram os pés na rua e perceberam a lava vindo em suas direções a uns dez metros ou menos. No momento os dois quase perderam a esperança de sair dali pelo menos com as pernas e usaram-na para correr da lava. A esquina parecia interminável. A cada passo que davam a lava chegava mais perto. Ao longo do caminho eles foram deixando toda a bagagem para trás para ficarem mais leves e correrem mais rápido do que a lava escorria.
                Pena que o destino foi severo com eles. Quando a rua acabou e deu numa estrada de terra em direção ao porto, havia uma árvore gigantesca caída bem no meio da estrada, deixando somente um pequeno espaço debaixo dela, sendo que só poderia passar um de cada vez. Kyle foi à frente e logo ao passar seu pai entrou no buraco e ficou preso.
                Os ouvidos de Kyle se fecharam, a única coisa que ele ouvia eram os gritos de sue pai sendo consumido pouco a pouco pela lava. Seu mundo havia caído. Vendo seu pai se contorcendo e sangue brotando de sua boca e seu nariz, Kyle teve vontade de desistir, porém seu pai, em seu último movimento, olhou para Kyle e acenou com o braço para ele continuar.
                Espantado com o pedido do pai, Kyle tentou ir até lá para tentar resgatá-lo (pelo menos seu corpo), e a árvore terminou de ruir, liberando uma cachoeira de lava, respingando um pouco na camisa de Kyle, que a tirou imediatamente, já começando a correr de novo.
                Ao fazer a curva da estrada, Kyle viu o mar e por um momento pensou que estava a salvo, porém a lógica falou mais alto do que a fantasia. Além de a água estar fervendo, a mistura de lava e a água do mar é mortal (pois a lava é rica em Enxofre (S), e a água do mar (H2O), tem uma quantidade maior de oxigênio e enxofre com essa água resultaria em: H2SO4 (ácido sulfúrico).
                De um lado um mar de ácido fervente, do outro uma floresta em chamas, atrás um monte de lava e à frente um corte na rua de uns dez metros cheio de lava escorrendo para o mar... Kyle nunca havia pulado mais longe em sua vida, quando ele colocou seu pé de impulso, a terra em baixo de seu pé se deslocara para cima por causa de um tremor e Kyle caiu do outro lado ileso.
                Parte do pesadelo havia acabado. Pelo menos a lava não era mais problema...
               
                Continuando seu caminho até o porto, Kyle só conseguia pensar na imagem de seu pai sendo consumido pela lava. Por alguns momentos aquela imagem tomou conta dele, que quase padecia com o peso das lembranças.
                Como aquilo poderia ter acontecido? As chances de erupção eram mínimas, quase nulas, o caminho do magma havia se fechado, nada mais passava daquele vulcão... Pena que pensar nisso agora era inútil e para melhorar a situação, grande parte do porto tinha se corroído devido à água com lava.
                Ao chegar à entrada do porto, todas as pessoas estavam desesperadas. Aquilo parecia mais um formigueiro do que uma multidão de seres humanos. Mesmo de longe dava para se ouvir um telão que tem no pátio central dizer: “o mundo enlouqueceu! Parece que existe uma criatura sanguinária para cada três humanos. Falamos do topo de um prédio comercial em New York, e nos parece que essa será nossa última transmissão...”.
                Kyle a toda a multidão congelou ao ouvir essas palavras. Parte da esperança de Salvar o mundo dessa loucura tinha acabado.
                Num súbito ranger de metal e estalar de concreto, toda a estrutura restante, sucumbira...

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                Parecia que quinze aviões haviam passado ali naquele momento. Logo que a última viga de metal imergiu na baía, uma névoa havia tomado conta totalmente dos arredores do finado porto. Parecia que havia um vidro bocejado na frente dos olhos dele. À medida que ele andava tentando achar um ponto de referência, ficava atrás dele um rastro de névoa rasgada.
                Tateando pelo local, ele se deparou com uma parede de terra, onde em cima e no meio havia pequenas plantas e raízes de árvores, onde ele foi se puxando até que ele pisou e o chão sumira debaixo de seus pés, dando lugar á metros de água sobre sua cabeça.
                Não tinha mais nada o que fazer a não ser tentar chegar à superfície, nisso que um enorme vulto passo três metros à sua esquerda, e à direita tinha uma barra de ferro com uma mordida que só um tubarão de vinte metros com dentes de diamante poderia fazer. A mordida parecia ter uns dois metros de diâmetro, formando um semicírculo na grossa coluna de metal que sustentava o píer.
                Não muito depois dessa aparição Kyle se lembrou que tinha que respirar e voltou à superfície. Sua fungada foi tão forte que ele parecia ter visto o ar recuar na sua frente. “Socorro!”, ele gritou e uma pessoa na margem a uns dez ou quinze metros ouviu seu grito desesperado. Era incrível que depois disso ele ainda conseguira gritar dessa forma.
                Essa pessoa foi a única que teve decência de parar de correr que nem louca e pensar com bom senso, ou seja, parar e salvar essa alma. A mulher entrou na água e foi em direção à Kyle e pôs o braço dele em cima de seu ombro e o carregou até a praia, onde ele deitou na areia e respirou fundo, tentando reunir as informações e enxergar, pois seus olhos ardiam devido à água salgada.
                - Você esta bem? – indagou a mulher – Tem alguma coisa machucada?
                Parecia até que era sua mãe o “scaneando” depois de um tombo de bicicleta
                - Estou bem... – disse ele, tentando respirar – só estou um pouco cansado.
                - Ok, então se cuide heim! – ela disse sorrindo, e continuou sua corrida até o navio mais próximo.
                Kyle levantou meio desnorteado em meio à multidão, que corria contra ele. Seus ouvidos estavam parcialmente tampados pela água e o resto estava tampado pelo estresse em sua mente. Porém logo ao fundo, no final da rua, uma coisa chamou sua atenção. Uma das criaturas que acabara de sair da abertura do vulcão, estava liderando outros três menores e logo ao olhar para toda aquela gente soltou um berro que todos viraram para ver o que o estava emitindo.
                O que antes era pânico agora era loucura total. Parece que todas as pessoas tinham sido possuídas por uma espécie de falta de rumo. Elas não queriam saber pra onde estavam correndo, contanto que não fosse em direção àquela criatura coberta de lava e seus filhotes...
                Kyle só reagiu porque uma pessoa bateu a cabeça na sua, caindo no chão que nem uma jaca madura. A mesma sensação de estar correndo de um rio de lava tomou conta de Kyle de novo. A criatura vinha dando golpes que passavam a centímetros de Kyle e quase arrancava pedaços de sua pele, com aquelas garras enormes e negras como granito.
                Num súbito golpe de sorte Kyle viu à esquina um ponto de ônibus coberto e pensou na possibilidade de conter alguma das criaturas lá, apesar de os menores só estarem seguindo a maior. Virando em direção ao ponto, Kyle se impulsionou num dos bancos de plástico azul anil do ponto e dando um chute de cima pra baixo na cobertura de acrílico, que cedeu e quebrou na diagonal fazendo uma ponta afiada que absurdamente atravessou o tórax ( se é que se pode chamar de tórax da criatura ).
                O mais estranho é que ao morrer a criatura maior as outras murcharam até ficarem parecidas com uvas-passas no meio da rua, que continuava até uma ladeira logo adiante.
                Kyle era o herói do momento. A multidão virou para ele e começaram a aplaudí-lo, deixando o rapaz sem graça... Com as bochechas rosadas Kyle agradeceu e saiu de fininho, despercebido pela maioria.